cpmaffiliation 728 x 90

CORONEL DELMIRO GOUVEIA - (Geraldo Sarno, 1979)


Em Coronel Delmiro Gouveia, história do industrial é contada a partir do ponto de vista de sua esposa, Carmela, do próprio Delmiro, de um de seus sócios e ainda de um de seus funcionáriosNo cinema, um homem segundo quatro olhares

Por: CARLA CASTELLOTTI - REPÓRTER 

Geraldo Sarno não sabia quem era Delmiro Gouveia. Foi em 1967, durante uma espécie de expedição pelo sertão nordestino, que o documentarista baiano entrou em contato, pela primeira vez, com a história do industrial cearense. “Estava com um projeto para fazer dez documentários sobre a cultura popular nordestina. Percorremos Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará”, rememora o cineasta. 

Das andanças pela região, Sarno conta que surgiram quatro filmes: Vitalino Lampião, Os Imaginários, Jornal Sertão e Eu Carrego o Sertão Dentro de Mim. Foi em meio a esse processo que, numa visita à Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), o cineasta se deparou com um busto em homenagem a Delmiro Gouveia. Curioso, perguntou ao vigia da hidrelétrica quem era o homem retratado na escultura. 

“Tomei um susto quando soube de tudo aquilo”, diz Sarno sobre as primeiras impressões que teve ao conhecer a trajetória de Delmiro. Em busca de mais histórias sobre o industrial, o cineasta também esteve na cidade alagoana de Delmiro Gouveia, onde encontrou em ruínas a Usina de Angiquinho, a casa na qual Delmiro havia morado e o que havia restado da Fábrica da Pedra. 

Entre o primeiro contato com a história do industrial sertanejo e o início das filmagens de Coronel Delmiro Gouveia uma década se passou. Embora se firmando como documentarista, Sarno preferiu retratar a trajetória de Delmiro por meio de um filme ficcional. “Resolvi fazer uma ficção porque a história era muito forte”, rememora ele. 

“Nesses dez anos, busquei a biografia de Delmiro (Delmiro Gouveia – O Pioneiro de Paulo Afonso), conheci o biógrafo Tadeu Rocha, que me revelou passagens que não estão no livro, e fiz inúmeras entrevistas (reunidas no livro Cadernos do Sertão) com pessoas que conheceram ou haviam trabalhado com Delmiro”, conta Sarno, para quem a figura de Delmiro representa um ícone do Nordeste: “Delmiro avulta a figura desse civilizador, burguês empreendedor. Ele conseguiu montar uma estrutura de modernização no sertão”. 

NO SET 

Com apoio da hoje extinta Embrafilme, Sarno filmou em diferentes paisagens do Nordeste. Além de gravar nas cidades de Delmiro Gouveia e Paulo Afonso, o filme também foi rodado no sertão da Bahia, local onde o cineasta retratou o comércio de algodão e couro, atividade comercial determinante para o industrial erguer seu império. 

A equipe também passou pelo Recôncavo Baiano, região que, segundo o cineasta, no já distante ano de 1978 oferecia as condições ideais para reproduzir o ambiente do Recife do século 19. E não foi só. O longa de Sarno, mais especificamente na passagem em que o diretor retratou a Fábrica da Pedra, também teve tomadas gravadas em Petrópolis, no Rio de Janeiro. 

O objetivo do filme, diz Sarno, além de recuperar a história esquecida do industrial, foi mostrar que o assassinato de Delmiro beneficiou diretamente os ingleses, cuja indústria, a Machine Cottons, incorporou a Fábrica da Pedra 12 anos após a morte do industrial, em 1929. 

E ainda que Delmiro Gouveia tenha sido retratado durante muito tempo como mártir, em seu filme Geraldo Sarno buscou fugir de uma abordagem maniqueísta. Não à toa, em Coronel Delmiro Gouveia a história é contada do ponto de vista de quatro narradores: sua esposa, Carmela; o próprio Delmiro; um de seus sócios e também um de seus funcionários. 

O longa também conta com uma das cenas de western mais famosas do cinema brasileiro, a que retrata a fuga de Delmiro Gouveia da prisão para refugiar-se no sertão alagoano. Coronel Delmiro Gouveia não está disponível em DVD. mas pode ser encontrado no Youtube. ‡

http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=219208
.